sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O TEMPO/THEREZA FREIREZ- POESIA

A CHAVE SOBRE A TERRA

Sobre a terra quase nunca passaram meus olhos.
Havia como que cortinas ao redor deles.
Eclosão. Ausência próxima.
Seu pó de ouro como o sol. Inviolável.
As laranjeiras, suas flores caídas
Com o frescor das chuvas de verão
Envolvem as alamedas num perfume único.
O odor da terra, misturado ao odor de anis
Vem das casas abertas. Chá das cinco.
Delícias maravilhosas nesta tarde
De intensa luz vermelha. Eu, suportando tanta alegria,
Momento de intacta felicidade,
Carregado de preciosa realidade.
Borboletas amarelas buscam o azul do céu
Nesta tarde de âmbar, quase invisível.
Falo pouco, para poder ainda mais sentir
O cheiro das flores. O ruído das coisas.
Meus olhos dentro do silêncio enorme. Fixos.
Mil cravos se desfolham e lembram o forte cheiro da Índia.
Rio sagrado, Gandes. Himalaia. Calcutá...
Reflexo do sol. Brilho intenso numa tarde de purpurina
Nenhuma pérola tem esplendor mais forte.
Rosas tão coloridas. Perfumadas.
Romãs tão pesadas. Partidas. Numa mistura doce e ardente
Provocam as nuvens. Desaguam precocemente. Frementes.
Esparzindo o ouro da terra até às narinas... molhadas.
Numa passagem compacta pertence ao silêncio dos cetins
O momento seguinte. Tudo crepita à luz do dia,
É a imagem da vida numa romã brunida
Inteligência. Beleza. Respiração.
Cai à noite. De pés no chão, eu estava.
Adormeceria ali, pisando a terra molhada;
Das flores o perfume que extasiava
Enchia minh'alma. Embriagava.
Morreria ali.molhada. Enriquecida.
Com meus pés que já verdajavam.
Com a noite uma luz roxo-pálida
Uma luz frouxa, para tornar lento o pensamento
Deslocável ao menor sopro do vento.
autora: Thereza Freirez

Nenhum comentário:

Postar um comentário